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25/08/2016 00:00

Manejo Florestal Comunitário: Uma alternativa para a Amazônia

Em entrevista, Jeremias Dantas, vice- presidente da Coomflona, fala sobre relevância do MFCF para mudança do cenário ambiental


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O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) aponta que até 2014 mais de 257 mil quilômetros quadrados de áreas foram desmatadas no Pará, o equivalente a quase dois milhões de campos de futebol. Um dos principais fatores que ocasionou o crescimento do desmatamento foi a exploração ilegal de madeira, que entre 2007 e 2012 abrangeu uma área de 717 mil hectares no estado, segundo o Greenpeace.

Diante desse cenário, o Manejo Florestal Comunitário e Familiar (MFCF) surge como uma alternativa que gera renda para as comunidades a partir de produtos e serviços florestais, mas sem comprometimento da sustentabilidade do território. A Cooperativa Mista da Floresta Nacional do Tapajós (COOMFLONA), no município de Belterra/PA, é exemplo de que a atividade prática do MFCF pode dar certo. Com mais de 210 cooperados, pertencentes a 21 comunidades da FLONA, a iniciativa comercializa os produtos provenientes do Manejo Florestal Madereiro e Não Madereiro e é reconhecida como um dos empreendimentos comunitários mais bem sucedidos da Amazônia. Jeremias Dantas, vice-presidente da Coomflona, é o nosso entrevistado de hoje, ele fala sobre a prática do Manejo Florestal Comunitário no Pará e explica a necessidade da construção de uma Política Estadual para do MFCF. Confira!

1- Por que a sua comunidade viu a necessidade de executar o Manejo Florestal Comunitário?

Jeremias Dantas: Vimos essa necessidade quando empresas entraram em nossa unidade e começaram realizar o Manejo. Na época existia um programa do governo Brasileiro que contratava empresas para a execução dessa atividade.  Isso revoltou muitos comunitários, que também tinham interesse em desenvolver a manejo florestal na região.
Nós entendíamos que a empresa levaria todo o lucro de recursos naturais que são nossos. Então, a gente começou a se organizar pra ver de que forma poderíamos acessar esse recurso. Na época, a gente viu a possibilidade de receber apoio através do Projeto de Apoio ao Manejo Florestal Sustentável na Amazônia (PROMANEJO), que financiou algumas despesas de implantação do nosso projeto. Posteriormente a isso, em 2005, conseguimos executar o primeiro plano do Manejo Comunitário na Floresta Nacional do Tapajós.

 

2- Como a Cooperativa Mista da Flona Tapajós surgiu nesse contexto?

Jeremias Dantas: A Coomflona surge em função da viabilização do Manejo Florestal Comunitário e Familiar (MFCF). Na época, tínhamos necessidade de atender ao viés de comercialização dos produtos do Manejo, mas só tínhamos associações. As associações têm um papel mais político e não comercial, por isso para comercializar teríamos que criar uma cooperativa.  Para isso, três associações intercomunitárias se uniram e criaram a Coomflona.

3-  Quais os desafios enfrentados para a execução do MFCF?

Jeremias Dantas: Com a criação da Coomflona tivemos uma série de aprendizados e troca de conhecimentos, porém não o suficiente para gerenciar todo esse processo do MFCF. Por isso, nos primeiros três anos confrontamos com uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas comunidades na Amazônia: gerir uma cooperativa.  Nessa época, um grupo de colaboradores foi essencial para que a iniciativa fosse bem sucedida, e o IEB está entre eles. O IEB trouxe consultores sérios e ajudou (e continua auxiliando) na gestão do nosso empreendimento comunitário.

4- Quais os benefício do MFCF?

Jeremias Dantas: Com o manejo florestal comunitário, vimos que podíamos manter a floresta em pé e ter uma renda melhor. Antigamente trabalhávamos na agricultura familiar e desmatávamos grandes áreas para manter as nossas famílias, porque a nossa principal fonte de renda era a roça. Então, quando começamos a executar o manejo florestal vimos que conseguíamos uma renda muito maior do que antes e , o melhor, sem desmatar.
Outra grande vantagem do MFCF é o conhecimento e as oportunidades que ele gera. Exemplo disso é que graças a ele, estamos prestando serviços em outras áreas. Além de tudo isso ainda tem todo um beneficio social proveniente da atividade e da nossa organização em cooperativa, como a construção de estradas, pontes e demais infraestruturas no nosso território.

 

5- Quais as vantagens do Manejo Comunitário em relação aos processos de concessão florestal empresarial?

Jeremias Dantas: A vantagem é enorme, não só socialmente, mas para o meio ambiente. Somos nós quem moramos na Flona, temos uma relação com o meio ambiente muito diferente de uma pessoa que não mora aqui, porque a floresta é a nossa casa e parte do que somos. Então, nós entendemos as necessidades das comunidades e por isso trabalhamos em prol delas, gerando renda por meio do MFCF. É importante destacar que as pessoas que trabalham no manejo possuem uma renda bem superior a quem não trabalha com a prática da atividade na Flona, o que consequentemente gera um dinamismo econômico no nosso território. Logo, acredito que o manejo empresarial não nos proporcionaria isso.

6- Quais a importância do Manejo Florestal diante do cenário socioambiental paraense?

Jeremias Dantas: O Manejo florestal madeireiro e não madeireiro são importantes para o cenário nacional como um todo, e em especial para a nossa região. Um dos grandes problemas ambientais que temos no Pará é o desmatamento, e o MFCF contribui para que ele seja minimizado. Afinal, o desmatamento também é causado pelos comunitários, que devido a falta de informação e necessidades financeiras utilizam a floresta de forma indevida. Com o MFCF, nós temos a possibilidade de ter renda e ao mesmo tempo conseguir preservar o meio ambiente da região. Acredito que as comunidades precisam se empoderar para executarem o MFCF, pois ele talvez seja uma alternativa para a Amazônia, porém precisa estar nas mãos certas.

7- A construção de uma Política Estadual do MFCF facilitaria a execução da atividade?

Jeremias Dantas: Com toda certeza sim.A Política Estadual do MFCF é necessária, porque criaria uma base legal para a execução das atividades relacionadas ao Manejo Florestal. Atualmente, não temos um procedimento definido que priorize a agenda dos comunitários e os coloque como protagonistas nesse processo. A gente crê que isso pode ser um caminho de oportunidades para novos projetos, novas perspectivas e para que as experiências exitosas, como a da Coomflona, se multipliquem. Porém, para isso é preciso uma articulação conjunta do governo e da sociedade civil. Afinal, a construção de uma Política Estadual para do MFCF é urgente! 

Texto: Juliana Lima/ASCOM IEB BELÉM
Foto: Acervo IEB